... Estamos vivendo num momento de mudanças e essas mudanças
estão nos atingindo como uma avalanche! Seja pela falta de ânimo e falta de esperanças
em um novo verão, seja pela falta de um corpo ativo e saudável, seja pela falta
de pensamentos mais livres... o fato é que estamos mudando de uma forma
completamente desorganizada a angustiante! Nossa idade está trazendo com ela o
peso de tudo que já vivemos e não vivemos ainda. Tudo que já esperamos e não
aconteceu, todos os sonhos que tivemos e nós mesmos destruímos ou o tempo
destruiu. Tudo que ainda não aconteceu e que não vai acontecer como nós sempre
imaginamos que iria... Mas e aí? E agora?!
Não é fácil olharmos pra trás e constatarmos que metade já
foi e que não sabemos o que fazer com a outra metade que está diante de nós. A
televisão, os jornais, os filmes, não nos preparam para lidarmos com a metade
que está por vir, com a 2ª metade. Hoje nós saberíamos o que fazer com a 1ª metade,
somos bombardeados com propagandas ultramodernas de novos carros, roupas da
moda, cremes para ficarmos mais bonitos, aparelhos com a tecnologia mais
avançada, tá tudo aí disponível. Tudo para todos os que estão na 1ª metade.
Para os novos, os vivos, os que importam... Mas o que fazer com o povo da 2ª
metade? Como vamos viver bem se estamos mais enrugados, barrigudinhos,
gordinhos, com dores no corpo e enfrentando cada vez mais noites mal dormidas e
o medo, que está tomando conta de nossos pensamentos e atitudes? A gente compra
todas as coisas que nos mostram as propagandas, mas não tem graça, porque nós
pertencemos ao outro grupo... ao grupo da 2ª metade... e essa metade não
importa!
Sim, você que é bem mais velho, da terceira idade, e está
lendo isso, com certeza vai dizer: “Imagine, vocês têm a vida toda pela
frente”... Provavelmente vocês têm razão (vocês sempre têm razão), mas para nós
que estamos aqui, na 2ª metade, no meio, sem poder ir para trás e sem saber
como ir para frente, não é claro e fácil assim! Na época de vocês tudo já
estava devidamente preparado para esse momento: vocês já estavam casados, já
tinham seus filhos praticamente criados, já estavam estabilizados em suas
profissões (mesmo que fosse algum cargo publico e rotineiro), enfim, tudo
estava “na mais perfeita ordem”... Vocês só tinham que continuar poupando suas
previdências e com mais uns 6 a 10 anos de trabalho, filhos já casados, iriam
começar a “aproveitar” os frutos desse trabalho: viajar, conhecer o interior e (quem
sabe) o Brasil todo. Mas com a gente é diferente... Nós não somos da atual
geração, a tal geração X ou Y e nem da geração de vocês! Somos do meio! Somos
da geração que fica entre vocês e os gênios que já nascem falando outra língua
e mexendo em smartphones e laptops como se fosse um chocalho. Só que nós ainda
estamos aqui vivos e no meio, no meio do caminho. No meio de um ambiente de
trabalho que está cheio de geniozinhos que falam (pelo menos) 4 línguas e tiram
sarro quando você se atreve a balbuciar seu inglês macarrônico, no meio de
chefes modernos que têm metade da sua idade e que prezam pela “qualidade de
vida” trabalhando 12 horas/dia, no meio de colegas de trabalho que vivem a
comentar as várias viagens que fizeram ao mundo, no meio de meninos e meninas de
20 anos que já sabem o que querem (desde os 12!) e que te olham como se você
fosse um ET quando você comenta que o filme Star Wars (ou Uma Linda Mulher) é
seu filme predileto. Não sei o que é pior: estar nesse meio ou estar na idade
do meio... Sim, porque não é nada demais ter 40 e poucos anos, somos até
bonitinhos e “jovens” ainda, mas não se situar, não se sentir pertencente a lugar
nenhum é que é o problema! Não saber o que fazer com os próximos 40
anos, é o que nos deixa realmente angustiados... e tristes, e impotentes... e enfim, sem vontade de sonhar.
Todas as noites, antes de dormir, eu falo com Deus (e até
isso anda me parecendo pré- histórico ultimamente) e peço a Ele que, por favor,
me mostre o que fazer com a 2ª metade, porque estou literalmente perdida.
Perdida aos 40 e poucos, sem saber se corro, ando, malho, faço dieta, estudo,
leio, ou... desisto! E acho que não estou obtendo resposta alguma, porque até
Deus está confuso e perdido. Deus deve pensar: “O que está acontecendo? Quando
foi que o carro do ano se tornou mais importante que o amor dos pais? Que preservar
uma árvore se tornou mais importante que alimentar uma criança? Que a fama se
tornou sinônimo de caráter? Que 40 anos de idade se tornou ser tão novo... e ser
tão velho?”.
E eu continuo a me questionar: onde estará o meu pedaço? A
minha metade? Cadê minha vida tranquila com meu marido e meus filhos quase
criados? Cadê minha aposentadoria breve e minha viagem para conhecer Gramado no
Rio Grande do Sul? Cadê o momento em que poderei relaxar e deixar a barriguinha
crescer sem culpa, porque já me preocupei demais com isso e já fui linda? Cadê?
No passado não está. E no futuro... bem, no futuro não sei...
Eu tenho apenas uma certeza dentro de mim e é nela que estou
me agarrando (literalmente) para continuar aqui e tentar achar alguma resposta:
eu amo minha família! E sou grata a Deus por ter me dado o privilégio de estar
ao lado deles durante essa 1ª metade. Mesmo após tantas decepções, tanta
inversão de valores, tantos princípios esquecidos, eu agradeço a Deus por cada
um deles em minha vida: minha mãe, meu irmão e minha sobrinha. Eles têm feito
minha vida valer à pena e têm me dado força para tentar ser feliz, mesmo dentro
desse tornado, chamado nova Era.